terça-feira, 20 de outubro de 2009

O passado nos condena?...

Relembrando momentos de reabilitação, na minha infância após a Pólio, vejo bem claro o quando se jogava sobre os pacientes a responsabilidade sobre o sucesso ou não da batalha. Médicos, na sua totalidade ortopedistas, davam-se por muito satisfeitos em fazer intervenções cirúrgicas (nem sempre) bem-sucedidas e, depois, largavam nas mãos de sequelados e seus famíliares o "enigma" de novas situações posturais; para que se transformassem magicamente em movimento, em aptidão.

Passei por 13 intervenções corretivas, em meia dúzia de internamentos hospitalares. Cheguei a ficar períodos de até seis meses imobilizado na cama; passei anos tentando trocar passos pela casa, literalmente pendurado em muletas inseguras e andadores crucificantes. Não me arrependo de nada, eu e minha família tentamos TODAS as possibilidades; só desistimos de me fazer andar sozinho quando minha coluna, que já estava artrodesada, começou a assumir uma postura sem equilíbrio possível.

Tive médicos maravilhosos, também caí nas mãos de malucos de jaleco branco. Os primeiros fizeram proezas curativas, os outros por poucos não me mutilaram. Acho que a arte de tratar bem a um paciente está diretamente ligada à capacidade do ouvir às suas demandas, nunca passa pela imposição de terapias ou procedimentos impostos. Poucos foram os médicos que discutiram os tratamentos que sofri. Felizmente, foram eles que fizeram os melhores trabalhos comigo.

Hoje, quando a informação nos esclarece os dramas que vivemos, com as decorrências da Pólio reconhecidas como síndrome, podemos até nos sentir como sobreviventes de uma era obscura, bárbara mesmo. Podemos considerar que sofremos tratamentos medievais e inócuos, que fomos sacrificados em testes impiedosos, que fomos dissecados vivos em nome de alguma descoberta que nunca veio. Tudo isso é desesperador.

Prefiro pensar que somos pessoas que aprenderam muito com o sofrimento, da ignorância à dor física, da restrição da liberdade à privação de muitas regalias. Prefiro considerar aquele tempo um período que forjou a minha fibra, que moldou meu senso de responsabilidade, que gravou à fogo o meu código de honra. Porque quem honra seu sofrimento com vitórias, por menores que elas sejam, não coleciona derrotas que matam.

J. Olímpio

domingo, 18 de outubro de 2009

A FOME E O LUCRO

Neocolonialismo, anotem este novo e perverso nicho de mercado. Oportunizado pela miséria crescente e patrocinado por governos em desmanche ético. Começou pela África e, se bobear, atingirá muitas áreas do chamado Terceiro Mundo.
A fome que campeia pelos países empobrecidos do norte africano desencadeou o processo, corporações transnacionais deram a partida para um perigosíssimo jogo de reaquisição desses territórios outrora dominados oficialmente por nações européias. No atual contexto econômico, os dominadores e os métodos são outros mas, na prática, os efeitos são até piores do que o sistema das antigas colônias.
Nessa nova onda de dominação, a China, a Coréia do Sul e a África do Sul são os campeões nessa modalidade, adquirindo imensas quantidades de terras no Congo e em outras nações que passam por crises econômicas extremas, já sem recuperação de suas finanças. E mais: que já perderam o alcance do estado nas regiões mais afetadas pela fome, pelo descontrole sanitário e pela inoperância administrativa.
A dinâmica é desigual e leonina. Os trustes compram enormes áreas à baixíssimo custo, comprometendo-se em dar contrapartidas mínimas, que pouco ou nada beneficiam às populações locais. Emprego, moradia, alimento e saúde aparecem mais como chamarizes num quadro de intensa exploração das riquezas e do potencial econômico desses sítios. São territórios extensos, literalmente abandonados, mas de infindáveis possibilidades lucrativas, quando adequadamente tratados.
Apesar de não se criar uma extraterritorialidade, essas áreas acabam sendo literalmente governadas por entidades sem nenhuma autoridade legitimamente constituída e, portanto, totalmente descompromissadas com o espírito público. Ao contrário, são comprometidas unicamente com o lucro.
Mais do que um simples questionamento acadêmico, o fato requer uma profunda reflexão sobre o desmedido valor que se dá à lucratividade da operação desses feudos encravados em países soberanos. Em função de mega-negociatas e em detrimento das populações, governantes em descompasso com suas atribuições negociam a própria dignidade nacional e condenam comunidades inteiras a uma escravidão compulsória, totalmente descabida diante dos direitos humanos.
A continuidade desse processo cria precedentes planetários e pode, facilmente, gerar modelos semelhantes em outras regiões carentes. Em 1970, o bilionário Daniel Ludwig inoculou o mesmo tipo de veneno nas mentes dos militares que então dominavam o estado brasileiro: criou na Amazônia o famigerado projeto Jarí. Sob a miragem de uma indústria de celulose, erigiu-se um império depredatório da natureza e um ambiente onde as condições de trabalho e sobrevivência eram desumanas. O monstro consumiu-se a si mesmo, por obra e graça da própria ação da floresta. Mas foi nefasto.
Cuidar da vida na Terra também é banir do convívio internacional essas relações espúrias entre o sofrimento humano e o lucro. Mais do que qualquer outra vã justificativa, há que se respeitar o muito que nos separa da bestialidade que sobeja na exploração do homem por seu semelhante.

J. Olímpio

sábado, 10 de outubro de 2009

O "pior" cego é aquele que quer ver

O ditado popular não é bem assim, mas serve como base para estes aforismos. Afinal, toda sabedoria – mesmo a popularesca – pode alavancar alguma evolução do pensamento.
A cegueira tem sido, através dos tempos, a melhor metáfora para todo tipo de ignorância, obscurantismo, fanatismo ou ira. Perdoem a maldade, mas o cego nem vê o quanto a imagem dele está sendo usada, em tantas comparações negativas...
O título destas linhas quer referir-se aos cegos de verdade, os que literalmente não enxergam um palmo diante do nariz. Esses, sim, são os que resolvem ser “melhores” ou “piores”, na inusitada lógica da minha argumentação.
O caso é que, rotulados como deficientes, homens e mulheres cegos sempre acabam sofrendo algum tipo de pressão para que sejam conformados, passivos diante da sua condição de não videntes. Para que um subversivo desejo de enxergar o mundo e as coisas não os libere da tutela, do jugo dos que podem ver.
Então, na nossa antropofobia, cegos têm de ficar na escuridão, surdos têm de se abster dos sons, paralisados têm de restar imóveis, exato onde os deixamos. E assim rasteja a humanidade.
Só que o ser humano é feito para superar-se, talvez por força de um inconformismo de sobrevivência. E essa mola propulsora não equipa somente os aptos, os atletas, os heróis de saúde. Mas, incorpora a fibra de todas os que se consideram maiores que seus problemas.
O “pior” cego é, na verdade, aquele que quer ver onde, como e porque. É o que deseja saber de seu lugar na casa, no mundo, na sociedade. É o que anseia por ser produtivo, respeitado, acolhido e amado. É aquele cuja história se faz por si, não por decisão alheia. Enfim, é a pessoa que, não por ser cega dos olhos, busca enxergar mais longe para vislumbrar melhor os rumos humanos.

J. Olímpio

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

plataformas elevatórias...

No início deste ano, visitei o Museu Oscar Niemeyer (Curitiba - PR, Brasil). Tive de percorrer todas as suas instalações numa avaliação técnica para um guia turístico voltado a pessoas com deficiência.

Chegando ao famoso "olho", um anexo com arrojado desenho arquitetônico, tive de usar uma plataforma elevatória para vencer a escadaria que a ele dá acesso. A tal plataforma, acoplada à parede lateral da escadaria, certamente foi feita por empresa especializada e deve ter custado bem caro aos cofres públicos. Mesmo assim, ela rangia e tremia, parecia um teleférico de montanha...

Domingo passado, fui conhecer um protótipo de plataforma elevatória "feito em casa", por meu grande amigo Fabiano de Castro; um daqueles gênios dignos de figurar entre os inventores mais brilhantes. O testdrive foi surpreendente, tanto no desempenho do equipamento quanto na qualidade e no acabamento visual do produto. Fabiano soube, inclusive, incorporar novidades preciosas ao seu modelo, como escamoteios automatizados, amortecedores de arranque e chegada, parada de emergência etc. Tudo dentro das mais rígidas normas de segurança e acessibilidade.

O objetivo deste texto não é anunciar o equipamento de Fabiano, nem se trata de bajular sua genialidade. Em sua bem montada oficina particular, ele desenvolveu e construiu algo mais eficiente do que o similar disponível no mercado.

A ideia é mostrar o quanto a sociedade ainda relega a condição humana da deficiência a planos inferiores, a níveis de menos valia, quando se trata de produzir e viabilizar máquinas e acessórios para a área. Já notaram como as armas têm sido, ao longo da história, objeto dos maiores empenhos e avanços tecnológicos?... Isso só prova que a humanidade ainda não se respeita como tal, que a semelhança humana ainda não é paradigma diante do lucro e da exploração comerciais.

Fabiano busca, agora, a homologação de sua plataforma junto aos órgãos de fiscalização. Sem ela, não poderá instalar sua plataforma na instituição de ensino que a encomendou dele. Sem essa aprovação, também não poderá construir e / ou comercializar outras máquinas de ajudar gente a vencer obstáculos. Um paradoxo na trajetória de alguém disposto a emprestar sua competência e seu desprendimento à inclusão social através da acessibilidade.

Finalizando: governos, instituições e comunidades precisam ficar atentos a essas iniciativas, para que se acelere a conscientização produtiva do conceito ACESSÍVEL. E nós, os sequelados de pólio, limitados fisicamente que somos, temos de estar sempre prontos a aplaudir soluções que contribuam para a superação das inúmeras barreiras das cidades mal aparelhadas.

J. Olímpio